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A Pedagogia do Oprimido está acontecendo aqui e agora

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Nelson Mandela. Barack Obama. Marielle Franco. João Pedro. Djamila Ribeiro. George Floyd. Miguel.

Tenho certeza que você já ouviu falar em alguns destes nomes, se não todos. Eles pertencem a pessoas importantes e corresponsáveis pela ascensão do movimento antirracista que está ocorrendo agora no Brasil e no mundo. Eles representam uma raça definida culturalmente pela cor. Eles são oprimidos conscientes da opressão que vivem. São, agora, oprimidos conscientizando opressores. Eles são agentes ativos e revolucionários da pedagogia do oprimido, proposta por Paulo Freire e estão quebrando a roda do sistema.

“Eu não consigo respirar”. “I can´t breath”. “No puedo respirar”. “Je ne peux pas respirer”.

A frase dita pelo George Floyd, segundo antes da sua morte por asfixia, estampou jornais e mídias sociais em diferentes países ao redor do mundo. Junto com ela, outras como “Vidas negras importam”, “Sem paz, sem justiça” e “Parem de nos matar”, estamparam cartazes em manifestações, tornando-se símbolos do movimento antirracista.

Todas essas frases fazem parte do universo negro. Sim, universo negro, bem diferente do branco europeu, oriental ou mesmo ocidental. Universo esse que não foi criado pelos negros próprios, donos de si, mas pelos opressores em um processo histórico de desumanização dos oprimidos. Universo que asfixia vozes e vidas, onde a consciência existente é a consciência dos dominantes e que nos convida a refletir, como o fez Paulo Freire em sua obra mais famosa, se são mesmo humanos os opressores que os mantém ali.

Ao ganhar espaço nos jornais e mídias socias, as frases símbolos do movimento antirracista também simbolizaram um dos princípios da teoria pedagógica do patrono da educação brasileira, o princípio de que é preciso aprender a dizer a sua palavra.  

Na obra Pedagogia do Oprimido, a 3ª mais citada do mundo em trabalhos científicos na área de ciências sociais, Paulo Freire metodiza a teoria da sua pedagogia, resultante de vários processos desenvolvidos por ele para alfabetizar crianças e adultos em uma época que o Brasil e a América Latina tinham graves problemas de acesso à educação por parte dos mais pobres.

O primeiro passo para aplicação do método de Freire é descobrir as palavras do universo vocabular do alfabetizando, chamadas palavras geradoras. Por exemplo, se os alfabetizando vivem no meio rural, produzindo queijo, é provável que palavras como “vaca”, “leite”, “roça”, etc. façam parte das palavras geradoras do seu universo vocabular. Assim como “justiça”, “paz”, “morte” e “vida” são palavras geradoras que fazem parte do universo vocabular dos negros.

É a partir das palavras geradoras que a pedagogia do oprimido acontece.

As palavras são trabalhadas como objetos da vida cotidiana. São animais, comidas, lugares. Tem cheiro, cores, sabores, sentimentos e, só então, formas gráficas (as letras). A partir desse processo de objetificação do universo vocabular em letras, o alfabetizando vê seu mundo acontecendo em palavras. Percebe, então, que pode escrever sua história, humanizando-se (Em um processo biológico e histórico, como o Homo Sapiens na Revolução Cognitiva).

Quando o alfabetizando se humaniza, pode então imaginar desfechos diferentes dos “prescritos” (pelos opressores) para a sua vida. E pode objetificá-los, tal como fizera com o seu universo em palavras escritas. E se pode objetificar, pode também ver e transformar.

É assim a pedagogia do oprimido. É “a conscientização pela alfabetização”.

E o que é, senão um processo de alfabetização, o movimento que está libertando oprimidos e opressores do sistema racista que vivenciamos a tantos e tantos anos no Brasil e no mundo? Estamos aprendendo diariamente com Djamilas e Obamas a reconhecer que vivemos em um único mundo e que esse mundo é racista. Estamos participando ativamente da alfabetização antirracista. Estamos vendo diariamente nos jornais e mídias sociais as palavras geradoras do universo vocabular dos negros. Estamos aprendendo a objetifica-las em imagens relacionadas ao genocídio negro, à violência policial contra o negro, às desigualdades econômicas, à segregação urbana. Estamos vendo esse universo, que na verdade não é o universo negro, é o universo nosso, e estamos sendo convidados a transformá-lo junto com eles.

Paulo Freire disse em Pedagogia do Oprimido que a “grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos” é “liberta-se a si mesmo e aos opressores”. Essa pedagogia está em marcha aqui e agora no movimento antirracista. Cabe a nós, que temos “a educação como prática da liberdade”, fazer a pedagogia do oprimido um processo de conscientização contínuo e inclusivo, onde todos são convidados a ser agentes educadores e transformadores da sociedade para que não existam mais oprimidos e opressores neste sistema. Como deveria ser há muito tempo.

12 Comments

  1. Antônio Maria de Moraes Pires Antônio Maria de Moraes Pires 7 de junho de 2020

    Bom dia Natália Pires.
    Eu sou contra a qualquer racismo ( raça, crédulo, futebol,etc…); e quando existir e tiver morte o autor deveria ser julgado da mesma forma que cometeu.

    • Natália Pires Natália Pires Post author | 7 de junho de 2020

      Boa tarde, Antonio! A vida é um direito humano fundamental. As punições para o racismo estão previstas em lei mas não incluem a pena de morte. A curto prazo, deveriam funcionar. A longo prazo, eu defendo a educação como melhor caminho para abolir todas formas de preconceito

  2. Kiko Teixeira Kiko Teixeira 7 de junho de 2020

    Parabéns, Nathalia!
    Muito bom o texto, sobretudo em tempos que até Paulo Freire é crítico, em maior parte pelos que nunca o leram e pelos que se aproveitam da posição cômoda de opressores que ocupam.

    • Natália Pires Natália Pires Post author | 7 de junho de 2020

      Obrigada pelo carinho.
      Não podemos esquecer que a alienação alimenta o sistema opressor…isso explica as opiniões sem fundamento tão comuns hoje em dia. Infelizmente…

  3. Maria Clara Maria Clara 8 de junho de 2020

    Texto maravilhoso embasado no patrono da educação … Lendo só me faz ter mais certeza que a educação muda o mundo em todos os sentidos positivos. Penso também que infelizmente os mais poderosos lutam contra o “saber”, pq povo q sabe e é crítico não se deixa enganar e cobra o que os nossos representantes muitas vezes n estão dispostos a fazer (lutar pelos oprimidos )

    • Natália Pires Natália Pires Post author | 9 de junho de 2020

      Paulo Freire escreveu que, para a concepção de educação opressora, “pensar autenticamente é perigoso”. Por isso é tão necessária a pedagogia do oprimido.

  4. Demian Goetzke Demian Goetzke 9 de junho de 2020

    Bom texto. Porém seguir esse chamado “patrono” da educação brasileira não resultou em absolutamente nada…nossa educação, seguindo esse pseudomodelo de “oprimido”, segundo o PISA 2019 estamos em 60° lugar em leitura, 68° em ciências e 74° em matematica….e pasmem, são analisados 79 paises…estamos atras da Malasia, Costa Rica, Chile…então devemos admitir que precisamos de mudanças, contra fato não a argumentos…esse modelo da pedagogia do pseudo “oprimido” nos envergonha no ranking mundial de educação…palavras de um aluno da escola publica…

    • Natália Pires Natália Pires Post author | 9 de junho de 2020

      Oi Demian, entendo sua revolta porque ela é, em parte, justificada. A educação pública no Brasil é, sim, um descalabro mas não podemos colocar a culpa disso na pedagogia do Paulo Freire. Pelo contrário. NÃO ESTAMOS SEGUINDO a pedagogia do oprimido. Ainda praticamos a “educação bancária”, onde os educadores consideram os estudantes como caixinhas onde podem “depositar” ou “transferir” conteúdo, o que é exatamente o contrário do que o nosso patrono defendia. Precisamos de mudanças urgentes no sentido de uma educação crítica, onde os “oprimidos” não sejam mais caixinhas e sim parte ativa no processo de educação, acabando assim com o sistema de opressão.

  5. Demian Demian 10 de junho de 2020

    Não estou revoltado, só estou demonstrando fatos. E sim, a pedagogia do oprimido é usado nas escolas brasileiras publicas a mais de 25 anos. Essa falácia do oprimido não existe! Ideologia politica presente em Paulo Freire não deve ser continuada, como admirar alguem que elogia Mao tse tung, Che Guevara, Lenin? E em seus proprios livros? Repito não existe opressão, o que existe é uma precaria formação de professores que vão pra rede publica de ensino sem nem dominar assuntos pertinentes como a literatura, matematica e assim vai…e sem nenhum tipo de ideologia politica tanto de direita como de esquerda. Respeito sua idolatria a Paulo Freire, mas ele nunca foi e nunca será o caminho para a melhora e nossa educação.

    • Natália Pires Natália Pires Post author | 10 de junho de 2020

      Prezado Demian, os únicos fatos concretos que você apontou são os dados do PISA.
      Não há falácia na pedagogia do oprimido. Pelo contrário. É uma construção teórica respeitada, estudada e adotada em escolas e universidades ao redor do mundo (A respeitada Harvard, nos EUA, é um exemplo). Apesar disso, a ideia da pedagogia crítica proposta pelo nosso patrono, não é adotada oficialmente aqui no Brasil. Tampouco é citada em documentos oficiais do Estado (nem na BNCC nem em nenhum outro documento que eu tenha conhecimento). Você pode ter uma opinião diferente da minha e da do Paulo Freire sobre o que funcionaria ou não para melhorar a educação brasileira e pode defendê-la. Só não desqualifique (sem argumentos concretos) uma obra reconhecida e eficiente baseado em achismos. Isso é contraproducente e antiético.

      • Demian Demian 14 de junho de 2020

        Se você estudou, ou conhece alguem que estudou licenciatura, você sabe que toda a obra do Paulo Freire é obrigatória e endeusada…se o PISA não é importante para demonstrar sobre a evolução de nossa educação o que seria? E posso falar que não concordo e acho falácia a ideologia do “oprimido”, isso não é antiético, muito menos contraproducente…só questiono essa ideologia que ele criou, onde aliena o aluno, pode não ser o objetivo da obra, mas a militancia esquerdista no Brasil soube utilizar bem esse movimento nas universidades brasileiras. Enfim, minha opinião nao pode ser qualificada como antiética, pois conheço a obra, li seus poucos livros, e devemos valorizar tambem outros patronos que não são tão “endeusados” como Anisio Teixeira por exemplo.

        • Natália Pires Natália Pires Post author | 14 de junho de 2020

          Oi, Demian. Se você ler meu último comentário novamente, vai ver que o que chamei de antiético e contraproducente foi você desqualificar uma obra científica com base em achismos.
          Sua opinião é uma liberdade e um direito que você deve exercer e eu fico feliz de dialogar com você sobre ela – apesar de discordar completamente. Talvez, uma releitura da obra Pedagogia do Oprimido te faça ver o método Paulo Freire com outro olhar. Quando eu li a primeira vez, não entendi bem a mensagem que ele queria passar mas, na segunda leitura, percebi a preocupação genuína que ele tinha para com o povo. Quem sabe não acontece o mesmo com você?

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