Press "Enter" to skip to content

A Tragédia dos Bens Comuns e a disseminação do Covid19 no Brasil

Compartilhe

Imagine-se vivendo numa comunidade onde não existe um contrato social entre os habitantes. Todos são livres para viver suas vidas como quiserem, satisfazendo suas necessidades a partir do uso dos recursos naturais – que são comuns a todos – como bem entenderem. Imaginou? Agora, adiciona um lago a essa comunidade. Um lago com peixes. 6 pares de peixes, para começar. Pode escolher a espécie. Daí, imagina agora que tem 4 pescadores nesta comunidade e que todos eles sabem que, todas as noites, cada par de peixe dá origem a um novo peixinho. Isso significa que, se cada um pescar 1 peixe por dia, deixarão 8 peixes restantes no lago que, por sua vez, produzirão 4 peixinhos à noite, recuperando a capacidade de abastecimento do lago novamente. Parece mágico, não é? Se todos os pescadores pensarem no bem da comunidade, antes do seu próprio bem, pescarão apenas 1 peixe por dia e isso garantirá seu sustento de peixe diário. Mas, você já parou para pensar no que aconteceria se algum pescador pensasse apenas no seu próprio bem e pescasse mais de um peixe por dia?


A ideia da tragédia dos bens comuns (“Tragedy of the commons”) foi formalizada pela primeira vez no século 19 e desde então vem sendo base para discussões sobre a importância do estabelecimento de contratos sociais para garantir que o bem-estar social prevaleça sobre o bem-estar individual. O exemplo do lago com peixinhos é um clássico para explicar a teoria por trás da ideia do inglês Forster Lloyd, mas a prática do pensamento do economista rendeu um prêmio Nobel de Economia, em 2009, para a americana Elinor Ostrom, autora do livro “Governing the Commons” (ainda sem tradução para o português), onde difunde outras opções de contratos sociais, alem dos de Estado (Leis, Constituições, etc.) ou os de Mercado (norteados pela Economia).

O caso do Brasil


Seja qual for a vertente de análise que você escolha para entender ou investigar a Tragédia dos Bens Comuns, o ponto importante de discussão está centrado na dificuldade dos individuos enxergarem o bem-estar social como mais importante que os seus próprios. Estamos vivenciando esta dificuldade agora, no Brasil, com a pandemia do coronavírus, onde pessoas desrespeitam sistematicamente as regras de isolamento social e aglomeram-se em bares, shoppings e igrejas (locais fechados, sem ventilação, que são altamente propícios para contaminação). Assim como os pescadores sabiam da escassez dos peixes, essas pessoas sabem dos perigos da aglomeração para a sociedade como um todo. E ignoram-os.


Em artigo para o site The Conversation, a pesquisadora australiana Kate Brady, associada a Cruz Vermelha Australiana, argumenta que estamos vivendo um trauma coletivo e que isso irá afetar a forma como vemos o mundo e nos relacionamos com nossos pares. Se saber o voto na eleição presidencial de 2018 estava servindo de filtro para iniciar ou manter relações pessoais por aqui, saber como as pessoas estão se comportando no período da quarentena será, sem duvidas, fator de ponderação para sentimentos de confiança e pertencimento a uma comunidade.


Quando não consideramos o impacto de nossas ações na sociedade em que vivemos (seja no âmbito local, nacional ou global), corremos riscos de ir contra as leis do contrato social do qual fazemos parte. Este contrato nem sempre está simbolizado em um documento, anel ou tatuagem. Às vezes ele é natural, biológico. Em outras, é lógico. O fato é que sempre existe. Precisamos conhecê-lo e respeita-lo – sob o risco de traumas e mortes coletivas em caso contrário.

Artigo The Conversation: https://theconversation.com/dear-australia-your-sympathy-helps-but-you-cant-quite-understand-melbournes-lockdown-experience-148900

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *