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Porque o isolamento social não deu e nunca dará certo no Brasil.

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De falhas educacionais e comportamentais históricas do Brasil, perpassando pela ausência de coletividade e empatia social, estas são as causas mais prováveis do insucesso do Brasil frente à pandemia do Covid-19, em uma breve analise de quando rompemos a infeliz marca de quase 100 mil mortos.

Darcy Ribeiro já dizia que “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”. E o antropólogo estava coberto de razão.

As deficiências educacionais e pedagógicas orquestradas pelas elites dominantes brasileiras fazem parte de um projeto perverso de manutenção do status quo, com o fito de se perpetuar privilégios e sem que existam muitas irresignações da sociedade.

Em apertada síntese, é como se os seres que possuem o condão de tutelar o Brasil quisessem as coisas do jeito que estão, para sempre, de novo e de novo.

Contudo, nem todas as variáveis podem ser previstas, ora, o ser humano é um animal que não segue um determinismo biológico, possui variabilidade comportamental, logo, nem todos os cenários podem ser antevistos.

E é exatamente o caso da pandemia do novo coronavírus.

Inicialmente, afetado pelas notícias dos outros países, o brasileiro demonstrou preocupação e quando não tínhamos nem duas mil mortes, os protocolos de isolamento social eram amplamente defendidos pela massa populacional e até por certa parte da elite econômica brasileira.

Entretanto, aliado a diversos fatores como dimensões continentais, desinformações trocadas em todas as esferas públicas e conturbações políticas, essa mesma elite percebeu e profetizou, como sempre, que essa realidade jamais seria superada, justamente pela ignorância das massas, fato construído por essa mesma plutocracia ao longo dos séculos.

É nesse sentido, que os mandantes financeiros começaram a introduzir nas massas, aliado a pouca irresignação do brasileiro, a “necessidade” de retomada das atividades comerciais, custe o que isso custar.

Na mesma esteira, agentes econômicos pressionaram políticos, em especial os chefes do Poder Executivo, a flexibilizar as medidas, também custando o que for custar, para que o “novo normal” seja imediatamente colocado à prática. E esses chefes do Poder Executivo acabaram por ceder, todos, sem distinção ideológica ou partidária.

A população, em sua maioria hipossuficiente, pobre no sentido patrimonial e com necessidade de atender a necessidades básicas fisiológicas, como o ato de comer, foram os primeiros a abraçar a causa dominante, por puro instinto de sobrevivência e sem nenhum questionamento crítico.

O brasileiro médio, que não pertence à elite e provém de certo grau de instrução, a prima facie, não concordava com a flexibilidade das medidas, mas ao longo dos meses se permitiu tolerar alguns comportamentos.

E o que era fato consolidado, cientificamente comprovado, tornou-se obsoleto até aos olhos de quem entende a necessidade das medidas sanitárias. Encontros cada vez mais usuais, na casa de amigos, em falso e discrepante isolamento se tornaram rotineiros e mais uma vez, a classe média brasileira afrouxou-se ante as massificações da plutocracia.

Todavia, a ausência de pensamento crítico e de autoavaliação não são os únicos problemas da sociedade brasileira. O desprezo comportamental, perpassando pela ausência de coletividade e empatia social é gritante.

Hoje, assustadoramente já morreram 100 mil pessoas. Esse é o “novo normal” à moda brasileira. Contudo, também poderíamos chamar o “novo normal” de banalidade do mal, conceitos trazidos pela cientista política e filósofa, Hannah Arendt.

O praticante do mal banal não conhece a culpa. Dessa maneira, é o resultado da massificação da sociedade, originando uma legião incapaz de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar, nos exatos apontamentos de Arendt a luz do caso concreto, assim como ocorreu na sociedade alemã, no período do Deutsche NS-Regierung¹.

Não podemos a todo o tempo, colocarmos a culpa na governabilidade brasileira, quando a democracia participativa permite que cidadãos possam a todo o momento questionar as medidas a serem traçadas.

Em grande verdade, o brasileiro naturalizou a morte, bem como desdenha da classe dos profissionais de saúde, das famílias afetadas e em grau imensurável deprecia o amor próprio.

Lugares onde a pandemia foi levada a sério, onde a educação e a prudência foram regra, o lockdown se estabeleceu e a naturalidade da retomada aconteceu sem maiores intercorrências. E isso aconteceu pelo amor, aqui talvez, bem talvez, seja pela dor.

Aqui voltamos ao “novo normal” em um cenário totalmente diverso e uma obscuridade berrante sobre o futuro.

É desse modo, que parafraseio Zé Ramalho, pois o povo terá que demonstrar sua coragem, à margem do que possa parecer e ver que toda essa engrenagem, que já sente a ferrugem lhe comer.

Ê, vida de gado.

Por fim, concluo com William Shakespeare: “O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui”.

Salve-se quem puder.

¹Governo Nazista Alemão.

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